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Para Trump, a democracia não é um valor universal; é um palco — e só interessa quando ele é o protagonista.

Donald Trump gosta de se apresentar como um grande defensor da democracia e da liberdade. O problema é que, em sua prática política e em suas declarações públicas, a democracia parece valer apenas quando confirma sua vaidade e sua ambição pessoal. Fora disso, passa a ser relativizada, instrumentalizada ou simplesmente descartada.
A construção de Trump como líder incontestável — o “grande homem” — exige reconhecimento permanente, aplauso constante e centralidade absoluta. Essa lógica é incompatível com a essência da democracia, que pressupõe limites, alternância de poder e legitimidade popular. O resultado é um autoritarismo velado, embalado em retórica democrática.
Esse traço ficou evidente em sua declaração sobre Maria Corina Machado. Ao afirmar que ela não tem o respeito do povo venezuelano, Trump não apenas erra; distorce a realidade. Maria Corina Machado não é rejeitada pelo povo. Ela é rejeitada pela ditadura. Quem não a respeita é o regime de Nicolás Maduro, hoje sustentado também por Delcy Rodríguez, justamente porque ela representa uma liderança popular real, construída a partir da mobilização, da resistência e da coerência política.
Trata-se, hoje, de uma das lideranças mais fortes da Venezuela, com respaldo interno evidente e amplo reconhecimento também entre a diáspora venezuelana espalhada pelo mundo. Esse apoio não é retórico nem circunstancial; é fruto de identificação, confiança e esperança concreta de mudança. Negar essa realidade não é análise política séria — é desinformação.
É falar muito para esconder incômodo. Maria Corina Machado incomoda porque não depende de padrinhos, não orbita lideranças internacionais e conquistou legitimidade por mérito próprio. Nesse ponto, Trump se comporta como um parlapatão de primeira linha, deblaterando pelos cotovelos sobre uma realidade que prefere ignorar.
O incômodo se aprofunda quando se observa sua relação obsessiva com o Prêmio Nobel da Paz — reconhecimento que ele nunca recebeu, mas claramente desejou. Ao anunciar que pretende receber Maria Corina Machado e ao sugerir que seria “uma honra” receber o Nobel “dela”, Trump ultrapassa o limite do razoável. O Nobel não é transferível, não é simbólico nesse sentido, não é objeto de vontade pessoal. A ideia de que uma honraria dessa natureza poderia ser “entregue” a outro líder revela não apenas ignorância institucional, mas uma vaidade que beira o delírio.
Mais uma vez, o gesto não fala sobre Maria Corina Machado. Fala sobre Trump. Fala de um individualismo fora do comum, de uma necessidade quase compulsiva de apropriar-se de símbolos, conquistas e reconhecimentos que não lhe pertencem. Tudo precisa girar em torno de sua figura. Tudo precisa, de alguma forma, ser reescrito para colocá-lo no centro da narrativa.
Esse comportamento expõe o núcleo do paradoxo. Para Trump, a democracia não é um valor coletivo; é um palco. Quando ele não é o protagonista, tenta reduzir o espetáculo. Sua régua de legitimidade não é o apoio popular, nem a luta concreta contra regimes autoritários, mas o quanto o outro ameaça sua própria centralidade.
É assim que emerge a figura de um déspota silencioso: alguém que não ataca a democracia frontalmente, mas a corrói por dentro, esvaziando seus significados, subordinando princípios a frustrações pessoais e tratando a legitimidade popular como detalhe secundário diante do próprio ego.
Ao minimizar Maria Corina Machado e ao tentar se projetar sobre uma conquista que não é sua, Trump não enfraquece a líder venezuelana nem a causa democrática. Ele enfraquece apenas o próprio discurso. Expõe que sua defesa da democracia é condicionada, personalista e incapaz de reconhecer lideranças que não orbitam sua figura. Quando a democracia não serve à vaidade, torna-se descartável.
Diante dessa dinâmica de personalismo, vaidade e desrespeito por limites democráticos, seria Trump e Maduro tão diferentes assim — ou apenas variantes de uma mesma tendência autoritária em formatos distintos?

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