Humberto Gebrim
À direita e à esquerda, o discurso muda, mas o poder costuma agir da mesma forma quando encontra oportunidade. Donald Trump, apresentado por seus apoiadores como defensor da liberdade, da soberania, do conservadorismo e da moral ocidental, tem acumulado declarações que flertam com a lógica de pressão, intervenção e tutela sobre outros países, mencionando Venezuela, Colômbia, Cuba, México, Irã e até mesmo a Groenlândia como alvos potenciais de ações, advertências ou ambições estratégicas. O mais simbólico é que a Groenlândia pertence ao Reino da Dinamarca, um país aliado histórico dos Estados Unidos, membro da OTAN, cuja população e forças armadas já chegaram a pagar um alto preço ao lado dos americanos em conflitos como a guerra no Afeganistão. Ou seja, nem mesmo alianças formais e laços estratégicos impedem que o discurso de força se volte, quando conveniente, até contra parceiros.
A retórica de Trump vem sempre embalada em justificativas que variam entre segurança nacional, combate ao crime, proteção de interesses econômicos, disputa geopolítica e “defesa da liberdade”. Mas, no fundo, ela mantém a mesma estrutura histórica de grandes potências que tentam impor sua vontade sobre territórios alheios — independentemente de quem ocupa o governo ou de qual ideologia afirma representar.
A Venezuela expõe essa contradição com nitidez. Durante anos, Trump atacou o chavismo, demonizou o regime bolivariano e tentou se apresentar como aliado da oposição. Porém, quando o jogo político mudou, suas falas e movimentos passaram a sinalizar uma disposição de aceitar arranjos que preservem a engrenagem de poder existente, desde que sirvam aos interesses dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo em que relega figuras oposicionistas como María Corina Machado a um papel secundário ou descartável, ele se dispõe a dialogar com lideranças do próprio regime, como Delcy Rodríguez, aceitando na prática a continuidade de estruturas que dizia combater — desde que garantam estabilidade institucional e acomodações econômicas convenientes. O discurso inflamado contra o bolivarianismo cede lugar ao pragmatismo de quem, diante do poder real, prefere negociar com quem já controla o aparelho de Estado.
É exatamente aí que a diferença ideológica entre direita e esquerda revela seu limite. A esquerda é frequentemente acusada de intervir, centralizar e subjugar em nome de narrativas revolucionárias. A direita, por sua vez, promete liberdade, livre mercado e soberania. Mas, quando tem a máquina do Estado nas mãos — exército, diplomacia, recursos estratégicos, influência internacional — a prática frequentemente converge. Mudam as palavras, mudam os slogans, muda a narrativa que tenta justificar a ação. A lógica, porém, permanece parecida: pressionar, tutelar, condicionar, explorar, garantir vantagens políticas e econômicas, mesmo que isso implique violar a autodeterminação de outros povos.
No caso de Trump, essa convergência se expressa não apenas nas ameaças dirigidas a países e territórios inteiros, mas também na disposição de conviver com regimes que ele próprio condenou — desde que estes se mostrem úteis aos seus objetivos estratégicos. A retórica de liberdade transforma-se em tolerância com autoritarismos; o discurso moralista convive com alianças de conveniência; a promessa de coerência ideológica é substituída pela velha prática da geopolítica de força.
A pergunta que resta, portanto, deixa de ser apenas quem está à esquerda ou à direita. A questão passa a ser: o que o poder faz quando pode agir sem freios? Quando a disputa sai do campo das ideias e entra no terreno dos exércitos, dos contratos, do petróleo, das sanções e das alianças oportunistas, a moralidade ideológica perde nitidez. O que se vê é a repetição de um padrão histórico: governos que pregam liberdade admitem a submissão de terceiros; líderes que prometem ruptura reproduzem os mesmos mecanismos de dominação; projetos políticos que juravam combater a opressão passam a aceitá-la quando lhes convém.
Diante disso, fica inevitável a reflexão: o que esperar de quem acusa a esquerda de subjugar povos — se, no poder, ameaça agir no mesmo sentido, apenas com outra narrativa? No caso de Trump, resta torcer para que suas bravatas permaneçam apenas no discurso, como demonstração de força dirigida à imprensa, às bases políticas e aos adversários internos. Porque, se ultrapassarem o campo retórico e se converterem em ação concreta, veremos novamente aquilo que a história insiste em nos mostrar: quando o poder decide impor sua vontade, direita e esquerda quase sempre acabam se encontrando no mesmo lugar.
